quinta-feira, 17 de abril de 2008

Clarice Lispector - Uma alma rebelde

Mais de 30 anos sem Clarice. Se não a mais importante figura feminina da literatura brasileira do século XX, com certeza a mais autêntica e contundente.
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"Eu não escrevo o que quero, escrevo o que sou."
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"Por não estarem distraídos

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Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos." Clarice Lispector

Clica alí na direita e assista um vídeo histórico de Clarice.

11 comentários:

PAZ disse...

Finalmente um novo artigo ...
Sábio, finalmente uma linda mulher, além de grande escritora. Embora a leitura, do que já li... não chegaou a me empolgar ... acho aflitiva... o coração bate a espera q algo aconteça... é ela pra ela ... o ego com o id .. ou coisa parecida ... tipo aquela dúvida q as vezes temos .. VOU ou NÃO VOU ...
Contente com sua VOLTA
Ev@

Anônimo disse...

Sábio..esta frase"Eu não escrevo o que quero, escrevo o que sou", Clarice ouviu alguém aconselha-la um dia sobre o que escrevia....quanto "Por não estarem distraídos" realmente o senhor foi muito feliz na escolha...com que suavidade descreve os desencontros em nossas vidas..às vezes nossa obstinação de ter alguém conosco,ou ter algo que não nos pertence também porque não, a procura do incompreendido,a busca do que não conhecemos,atrai olhares, invoca irresistivelmente uma consciência acompanhada de sombras que nos impedem de ver, sentir e tocar o que esta tão próximos de nós...essa obra de Clarice nos leva a viagens fantasticas .... viver momentos de de esquecimento da vida, do dia-a-dia..é por isso que amo a vida, amo as pessoas......amo a natureza e não me canso de gritar o meu amor para o mundo.....quer coisa mais gostosa e sublime que isso??? rsss
Abraços
Vanda

requeri disse...

não me sinto seduzia pela leitura da lispector. no entanto, numa fase importante da minha vida, já decidida a terminar um casamento de 22 anos, uma amiga, torcedora do gargarejo pela minha desejada e almejada vida futura, pra reforçar a decisão e com um medo enorme e tolo de que eu voltasse atrás, me apresentou o amor ... este é o único e o mais aconchegante texto que conheço dela - isto é o mesmo que dizer ao meu porrinha, filho único, aquilo que ele acha engraçado, mas adora ouvir: vc é o meu filho preferido ... rsrs ... quando terminei de ler pensei ... essa era eu!!! ainda bem. agora eu iria, de novo, sentir tesão.
muitas mulheres se vê por aí, à moda da ana daquele texto. faço questão de prestar atenção nisso, lamentar e agradecer por ter mudado tudo.
mulheres casadas, porque é assim que tem que ser, entregues a esta realidade e à rotina que a acompanha, sem que nenhuma emoção a envolva, pois, as que sente dependem daquilo que sentem os que a cercam. mulheres sem tesão, já que ficou lá longe o dia em que alcançaram sensação tão maravilhosa, pois, ter marido e filhos significa deixar de lado tudo o que é seu e se transformar neles.
fiz questão de recolher na web esse texto, meio compridinho, pra poder dizer que, desejando fazê-lo, é possível ler no releituras.com, cujo link não consigo colocar aqui ... anomalias do google.
bullshit!!!
portanto, busque no google ou me diga que mando por email.

rê.

Anônimo disse...

Não dá para falar de Clarice ...

Clarice basta ler...

"No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um hoem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes inisíveis, que viviam como quem trabalha - com peristência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e escolhera."(conto Amor - Laços de Família)

Clarice é radical e inspira em seu leitor sentimentos também radicais: ou ama-se a sua escrita ou odeia-se ... nunca será uma leitura para apenas " passar tempo"

Beijo para o Sábio que arrasou com esta postagem...

Bela

requeri disse...

dort bien, et ait de beautés rêves ... qui dort bien, croit bien. à demain, à bientôt. rê.

requeri disse...

voltei antes de ir pra cama pra dizer que aumentei a velocidade do filminho do jabá. isto faz com que as figurinhas passem mais rápido e não dê aquela soneira em quem tá esperando o monkey passar. vai ver. coloquei na 5 mas posso colocar 6, correndo o risco de passarem tão depressa que a gente veja. vamos testar. seria legal que desse certo. esse sistema ocupa bem menos espaço, ou seja, são ene figuras no espaço de uma .... é mentira terto????????
pergunta pro pelé procê vê ... hehe ... bj bj bj bj em fila indiana ... num disse que tô piosa???? bye agora vou e não volto ...

Ev@ disse...

Sábio, me informe porque meu nome agora é PAZ .... fui batizada de novo... Gostei muito ... mas sou a Ev@ ou será Paz

Anônimo disse...

Veja como a Clarice toca profundamente a mulher ... o trecho que selecionei, no meu comentário anterior, foi o mesmo comentado logo acima ... rsss

Bem ...para "amenizar" uma historia de menina ...

Medo da Eternidade

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.
Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:
- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.
- Não acaba nunca, e pronto.
- Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.
- Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
- E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.
- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
- Perder a eternidade? Nunca.
O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
- Acabou-se o docinho. E agora?
- Agora mastigue para sempre.
Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.
Mas aliviada.
Sem o peso da eternidade sobre mim.

Beijo para o Sábio.

Bela

Anônimo disse...

com censura .....
aki sei q vai ler.. desculpa num guento mais esses comentários, tanta coisa passando, e aki só tem Carolinas, vendo o tempo passar pela janela ..
O sr Sábio, conhece muito de literatura antiga, ou tipo Clarice... a linha da Clarice, foi a q Chico usou no seu romance ESTORVO, mas foi um romance angustiante igual os da Clarice.Autor que fala em pobre ... sr Sábio, veja a literatura q chamam agora de Histórica, encontrará, pobres e + pobres...como o nome da Rosa, q o cinema estragou, tinha no fundo, como um romance policial , ele estava nos contando a hist da igreja ... mas o cine só viu a parte "policial".. assim, como J Saramago q conta em Levantados do Chão, uma sla de tortura , onde ele diz q só baratas e formigas prsenciaram ... Agosto, o q eu chamo de cortina ... o suicidio de Vargas... ali vc encontra a nossa "policia corrupta".. isso meu caro ... literatura de ontem de hj ,, ,, de ontem temos Condição Humana .. de Andre Maurrois indo+ além .. chegamos em Angola, encontramos o Pepetela, autor de Nayrobi ... o herói é mulato .. o ponto de interrogação ... na revolução, ele não tinha lugar .. os brancos não o queriam ..pq achavam ele NEGRO..e os NEGROS achavam ele branco ... vcs q gostam de analizar situações ... encontrem o SE .. ou ? em Nairobi .. agora leio orfãos do eldorado, q conta a riquea q foi a borracha .. Eu não sirvo para estar entre vcs ... sofisticados de + ... eu sobro ... como sobrei no seu coração ...sobra é quase um ponto de INTERROGAÇÃO ... vc não precisa dos meus comentários, como não precisa de minhas montagens, como não precisa do meu amor.
Paz

Archimedes Carpentieri disse...

Paz ou guerra, ou Guerra e Paz ?
Nem Tolstoi pode responder.

Anônimo disse...

Eta véio do cachimbo torto.....rss não vai mudar nunca heim kkkkkkkkk
Beijos docesssssssssss.